Expedição à rua Fáustolo
parecia
longe
a rua fáustolo
seu grupo escolar
a p’ssora de canto orfeônico
(prima-irmã de guimarães rosa)
A um anoluz
o bar valadares
na esquina batida de seda
com cheiro de torresmo
e benson & hedges
do meu pai: mercury violeta sobre os trilhos da guaicurus
monark aro 18 + um pregador de roupa + uma carta de baralho chocando-se contra os raios = motor à explosão
imaginava-os todos
em órion e/ou canopus
o tanque da praça
“mergulhou, lombriga!”
é um interlagos conversível
estacionado numa garage
chamada tempo
como o jornaleiro
as aulas de piano de dona zulmira
a foto oriental
fábrica da leonam
procissões
figurinhas/decalcomania/salto carra-
peta, anel de caveira
tio rafael aprendendo caligrafia
pelo método professor de franco
latas de bolacha piraquê no quarto
“uma catita!”
e a vesícula apodrecida de tia alice
constelações
que eu julgava tão altas
aqui
na lapa
de baixo
A Monark aro18 mencionada nesse poema - que cometi tempos atrás em homenagem à doce infância no bairro da Lapa, em São Paulo - foi a minha primeira bicicleta.
Era uma Brasiliana 1964 e eu a ganhei de presente de Natal em 1965.
Há uns dias tentei recomprar a bicicleta.
Mas a de aro 18 não encontro mais.
Achei apenas uma inteiraça, de aro 28, mas pela bagatela de 2.550 reais num site de compras.
Para mim, aos 7 anos, ganhar essa Monark foi o equivalente a faturar a megasena sozinho.
Definitivamente ela foi o meu “Rosebud”.
Em cima de seu selim percorria quase diariamente a Praça Cornélia.
E, com ela, conheci simultaneamente a grande glória de me sentir livre no mundo e a enorme dor de esfolar os joelhos na calçada.
Anos mais tarde, no milagre brasileiro dos 70, ganhei uma bicicleta motorizada Velosolex.
Foi uma espécie de Queda para mim.
Rendi-me ao pecado da motorização, como o país rendeu-se à direita burra.
Nem sequer notei que a minha Brasiliana fôra dada de presente ao filho da nossa empregada doméstica.
Eu só tinha olhos para a Vélo francesa.
Talvez porque as franguinhas do Sumarezinho – mudamos para um sobradinho à Rua Engenheiro Francisco Azevedo - lançavam olhares lânguidos em minha direção quando eu circulava largando o maior fumacê pelo escapamento.
Foram dois grandes amores, devo confessar.
Mas a Brasiliana foi o primeiro e mais puro de todos.
Não tem jeito: a primeira bicicleta, que o Washington Olivetto me permita uma adaptação, a gente nunca esquece.
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