Quando tinha sete anos passei por uma experiência delicadíssima em minha Monark Brasiliana Aro 18.
Fui dar uma volta na pracinha, fiz lá uma micagem qualquer sobre o selim, e cai feio.
Até aí, normalíssimo. Ainda mais para uma criança cheia de energia que morava num apartamento muito pequeno.
Acontece que, ao me projetar no chão, acabei prendendo a pele do meu pueril saquinho na correia da magrela.
Nesses tempos os garotos andavam sem cuequinhas - explico para os mais jovens.
Uma moda que nunca entendi bem o porquê, mas era um fato.
Bem, aquilo com toda certeza foi um turning point na minha curta vida.
Mesmo para um infante como eu, a possibilidade de perder uma parte tão fundamental da anatomia masculina leva a questionamentos filosóficos e existenciais profundos.
Lembro-me que me perguntava incessamente o que seria de mim se não conseguisse sair daquela situação.
Viraria um roncolho? (Denominação que um tio meu piauiense do sertão usava referindo-se aos porcos capados de sua fazenda).
Avisados por passantes, acorreu ao local minha mãe e minha avó.
E, minutos depois, o seu Siqueira, dono da bicicletaria do bairro.
Foi ele que, como um habilidoso cirurgião-pediatra, libertou prontamente minhas partes pudendazinhas dos grilhões das correntes.
E sem nenhuma sequela, apenas um roxinho de nada que logo sumiu.
Meus três filhos deviam render-lhe homenagens anualmente por terem vindo ao mundo.
Seria o mínimo.
Sempre que passo por uma ciclofaixa e vejo o SOS Bike a postos me vem uma sensação de alívio.
É evidente que não faço mais micagens na bike.
E, se ocorresse o mesmo acidente da infância, teria que ser socorrido por uma junta de urologistas, não por um mecânico de bikes.
Mas os rapazes que acodem os ciclistas ali são todos de uma atenção e presteza muito especial.
Este post é dedicado a eles.
E ao seu Siqueira, um cara seminal para mim.
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